Gotas de chuva
Agora, as gotas de chuva que caem sobre a piscina, espaçadas e imprevisíveis, parecem-me a imagem que melhor descreve aquilo que existe dentro de mim e, no entanto, sei que se me sentasse a imaginar uma imagem concreta para este sentimento, nunca me lembraria desta visão simples, aqui, à minha frente: gotas de chuva a caírem sobre a piscina.
A minha idade irá parar no momento em que partires. Será uma espécie de morte cinzenta. Serás tu que partes, mas serei eu que desapareço. Para onde fores, haverá pessoas, que já existem agora, que respiram. No teu caminho, serão como pontos intermitentes de brilho. Talvez fales para essas pessoas, talvez elas te chamem pelo nome. Para onde fores, haverá mundo e vida. Aqui, continuará apenas a varanda onde estou: um balcão inútil sobre esta paisagem que se dissolverá numa cor única assim que partires. Sem surpresas, passarei a mão pelo cimento. Essa será uma carícia imaginária e desperdiçada.
Mas isso será depois, quando existirem lâminas em todas as lembranças, incêndios, horas suspensas e irreversíveis. Agora, estou aqui e ainda não partiste. A despedida já começou em cada palavra porque sei imaginar o silêncio, conheço-o. Engano-me a acreditar que só eu conheço o silêncio. Como em tantas outras tragédias banais, a mentira é um consolo, é sobrevivência. E ainda não partiste, eu ainda estou aqui. Dentro de mim, gotas de chuva caem sobre uma superfície lisa de água, misturam-se com ela e perturbam-na desde o seu interior, desenham uma organização impossível de círculos que se alargam e colidem. Agora, o céu triste. Agora, a tranquilidade. Gotas de chuva caem sobre a piscina.
*.*
About this entry
You’re currently reading “Gotas de chuva,” an entry on The Big Come Down
- Published:
- July 8, 2009 / 1:12 am
- Category:
- José Luís Peixoto
- Tags:
- José Luís Peixoto, literatura

1 Comment
Jump to comment form | comment rss [?]