Cortejo de silêncios.

Todo o problema, repito-o, estava em matar o tempo.
Por último, aprendi a não me maçar, a partir do instante em que aprendi a recordar.
( … )
E assim, com as horas de sono, as recordações, a leitura do meu jornal e a alternância de luz e da sombra, o tempo foi passando.
Tinha lido que na prisão se perde a noção do tempo. Mas, para mim, isto não fazia sentido. Não compreendera ainda até que ponto os dias podiam ser, ao mesmo tempo, curtos e longos. Longos para viver, sem dúvida, mas de tal modo distendidos que acabavam por se sobrepor uns aos outros e perder o nome. As palavras ontem ou amanhã eram as únicas que conservavam sentido.
Quando, um dia, o guarda disse que estava preso há cinco meses, acreditei, mas não compreendi. Para mim era sempre o mesmo dia, que caía na minha cela, e era sempre a mesma tarefa, que eu perseguia sem cessar. Nesse dia, depois do guarda ter saído, olhei-me na minha bacia de esmalte. Pareceu-me que o meu rosto ficava sério, mesmo quando tentava sorrir. Agitei-a diante de mim. Sorri, mas a imagem conservou o mesmo ar severo e triste. O dia acabava e era a hora de que não quero falar, a hora sem nome, em que os ruídos da noite subiam de todos os andares da prisão, num cortejo de silêncios.

Albert Camus, in O Estrangeiro

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