Lembro-me.


Lembro-me.

Lembro-me tão bem de me sentir despertar. De acordar daquele mundo em que deixamos a imaginação correr e misturamos a realidade com sonho, em que estamos refugiados.. Talvez um pouco crianças, em que não sabemos que o impacto que o acto de uma pessoa tem no nosso mundo não é o mesmo que tem no dela.. Uma simples palavra ou gesto. E aprender que as cousas não giram à volta de nós e ‘desculpar-lhes’ isso, de aprender sobre essa relatividade, como o “eu” é incomunicável e as pontes de ligação que conseguimos estabelecer com outras pessoas são mais díficeis quanto mais num mundo de sonho vivermos. De como as pessoas mudam e essas pontes podem desfazer-se, e compreender isso faz com que não magoe da mesma forma..

Depois do despertar disso foi a adrenalina de me sentir vivo, embriagado, a perspectiva romantica, a paixão pela vida. Deambular entre os sentidos e o prazer, a felicidade de acordar e o sol nascer. Dar de mim, receber, criar, exaltar, apaixonar, rir, sofrer, sofrer, sorrir, sofrer, sofrer, amar, sofrer, sofrer com um sorriso no coração, não me saciar de inspirar vida.

Mas a minha razão não mordeu isso. Como se tudo isso que pintava alegremente fosse uma massa caramelizada que comprimia e abafava a minha mente e que quebrou, e a força que me move por querer ver para além de, compreender.. Talvez obcessivamente, voltou. O peso assentou de novo, mas ainda havia em mim vitalidade, força para lidar com ele e procurar sem me consumir.

Li e li autores, procurei talvez um guia, ou apenas cousas diferentes.. Li-os e fui cada um deles, mas não me satisfez. Li filosofias diferentes e percebi que são túneis que não levam a lugar algum, apenas criações num plano meta-físico que nada dizem da realidade.
Cortei com isso e resolvi procurar por mim e dentro de mim.. Fui por vários caminhos, provei de tudo um pouco, até insanidade.

Olhei para fora e vi que não havia nada, apenas pessoas a projectar sentido, significado, conteúdo, em cousas que não o têm. Projectam o que querem ver nelas, condicionam-se a isso, fazem o seu estado de espírito depender de cousas que elas próprias projectam.

Adquiri esse estado de consciência e despi a realidade de projecções para conseguir vê-la…
Foi o que sempre quis: ver as cousas pelo que são.
Entediou-me e desencantou-me. No momento em que o fiz, soube que nunca mais iria poder acreditar em nada, e a morte assentou em mim em silêncio e soube que não me ia largar mais.

Amaldiçoei Fernando Pessoa por me ver nele.

Quando quis voltar-me para mim, vi que não encontrei um eu… As peças começaram a juntar-se. Vi a pluralidade, as construções que fazia dentro de mim, os diferentes ‘eu’ que construia em simultâneo e me davam diferentes perspectivas, e que sentiam de forma diferente todas as cousas. Como me podia deslocar entre eles. E percebi-me que isso era tão imaterial como a meta-física, tão irreal… Apenas construções. Que o sentir é tão projectado ou construído, como o sentido e significado.. procurei(-me?) algo por detrás dessas personalidades que eu sabia construir, não encontrei nada. Tentei perceber se elas fazem parte do eu, se o eu as cria, ver o que está por trás das máscaras, mas vim sempre parar a fumo e espelhos, abstracção.

Um pouco entediado juntei algum fôlego para procurar algo que me mova, sei que já não podia ser um romântico da vida. Tentei então procurar abalo no oposto, ser um romântico da decadência, do absurdo.. Procurar vertigem no declínio e embriagar-me pela auto-destruição. Mas acaba por aborrecer também. Mesmo o divertimento antigo de conseguir o que outras pessoas não conseguem e ambicionam, ou têm que trabalhar bastante para as ter, para depois as atirar fora na cara delas ou na cara da vida já não me diverte.

Estou cansado e gasto.
Olho a minha volta e dentro de mim e não vejo conteúdo. As cores que em outra altura usei para pintar o mundo estão apagadas, secaram e parecem cinza. Já não consigo acreditar nelas com essa verdade.
Vejo a morte em todas as cousas, sinto-a na água, no fumo do tabaco, ou nas cores do mundo.

Foram 5 anos… Parecem 50.
Apetece enrrolar-me e adormecer, nesta terra de nada.

Cloud – 04/10/06

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