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Num momento, o meu pai entrou na cozinha. Ninguém poderia pará-lo. Apenas se ouvia a sua respiração. Passou entre as pessoas, segurou o meu irmão por um braço e, com os homens que estavam na cozinha a seguirem-nos, foram para o hospital. Quando saíram, era de noite. Assim que a porta bateu a fechar-se, ficou apenas a aflição da minha mãe e das minhas irmãs, seguida pelas vozes arrastadas das vizinhas que tentavam consolá-las. Foi uma dessas vizinhas que, entre as sombras das outras, riscou um fósforo e acendeu o candeeiro de petróleo sobre a mesa. A partir daí, enquanto o choro da minha mãe e das minhas irmãs ia enfraquecendo, as vizinhas iam-se despedindo e saindo. Ficámos sozinhos na cozinha: as pedras do chão da cozinha, a mesa e os bancos de madeira. Através da luz e das sombras do candeeiro de petróleo, a minha mãe e as minhas irmãs tinham os olhos abertos de encontro a uma imagem que só elas podiam ver. Passou um tempo frio de guinchos e de lâminas. Ao fim do serão, o meu pai e o Simão chegaram em silêncio. O meu irmão tinha o lado direito da cabeça envolto em ligaduras que lhe cobriam o olho. Ninguém disse nada. Fomos dormir. Essa noite foi como as noites de muitos meses que se seguiram. Havia um peso fundo dentro de nós a puxar-nos para o nosso interior mais negro.
Passaram meses. O meu irmão nunca mais voltou a trabalhar com o meu pai na oficina. Depois de tirar as ligaduras, usou durante semanas a pala de couro que lhe deram no hospital. Um dia, apareceu com o olho limpo e destapado. A pálpebra estendida e branca sobre o olho vazio. No hospital, o doutor disse-lhe que podia voltar a fazer tudo o que fazia antes; mas quando o Simão falava de voltar para a oficina como aprendiz, o meu pai falava de muitas coisas e, sempre por outras palavras, mostrava-lhe que não podia ser. Pedia-lhe que esperasse um pouco mais e mudava de assunto. Numa noite, ao jantar, ainda não tinha feito doze anos, o meu irmão resolveu dizer-nos que tinha arranjado trabalho a dar serventia de pedreiro. Essa foi a primeira vez que o meu pai lhe bateu depois da tarde em que perdeu a vista. Depois dessa ocasião, zangou-se com ele muitas vezes e bateu-lhe muitas vezes. Ao longo de todos estes anos, nunca se zangou comigo e nunca me bateu. Sempre foi claro para mim que o meu pai se zangava e batia no meu irmão porque essa era a sua forma de lidar com a tristeza, com a mágoa que sentiu a partir daquela tarde em que o meu irmão ficou cego de um olho. Essa era a sua forma de o castigar. Sempre foi igualmente claro para mim que o meu pai não se zangava comigo e não me batia pela mesma razão. Essa era a sua forma de me castigar.

José Luís Peixoto, in Cemitério de Pianos

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One thought on “.

  1. Apesar de ser bastante mais diluido e leve que o Antidoto, gosto bastante dessa obra :p

    Alguem que gostava de conhecer xD JLP

    (L) (:

    “Sempre foi claro para mim que o meu pai se zangava e batia no meu irmão porque essa era a sua forma de lidar com a tristeza, com a mágoa que sentiu a partir daquela tarde em que o meu irmão ficou cego de um olho. Essa era a sua forma de o castigar. Sempre foi igualmente claro para mim que o meu pai não se zangava comigo e não me batia pela mesma razão. Essa era a sua forma de me castigar.”

    Gosto muito deste excerto, mas não sei se todas as razões porque gosto dele dão para perceber aqui no pedaço que colocas-te só. Integrado na obra toda é diferente :p

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