E se a morte te esquecesse?

E se a morte te esquecesse?

Ficarias aí deitado, o olhar fixo noutros olhares. Silencioso, ou a contar histórias de barcos, de oceanos e de mares, de peixes e de turbulentos rios – até que a luz poeirenta do mundo se extinguisse, para sempre.

Asfixiado pelas areias da praia onde a vaga fosforosa te abandonou.
Por que é que eu caminho no fundo deste tempo escuro e já não existo?

Mas nada acontece, porque a tua morte me tolheu. Não se ouve um fio de voz.
Resta o teu corpo deitado sob a respiração febril de quem se deu ao trabalho piedoso da vigília.

É através da memória dos outros que recordas o rosto que tiveste.

O que quero dizer é que já não sinto nada quando te olho. O rosto está morto e amortalhou o meu.
Outrora, quando navegavas, escrevia-te para contar o que não tinha sentido na viagem. Hoje, penso em ti como se fosses uma música da alma.
O teu olhar de morto e o meu são cúmplices, e ainda não deu hora nenhuma. Temos tempo de sobra.

Vou ressuscitar-te, assim poderás contar-me em sussurro o que fomos.
Eu poderei contar-te o que esqueci. Esta canção quase perdida na casa do nosso passado.

O sonho tem manchas de frutos sorvados no coração. Tem palpitações de sangue e de ilhas, de mares que se espreguiçam para dentro das cidades. E estas sobrevivem envoltas num véu de neblinas. Vêmo-las tremeluzir no turvo crepúsculo das praias.

Que ponte levadiça trará de novo o desejo esquecido nos postos longínquos?

Al Berto, in Livro Décimo Quarto – Prosa Poética

Too Much Heaven on Their Minds

My mind is clearer now
At last
All too well
I can see
Where we all
Soon will be
If you strip away
The myth
From the man
You will see
Where we all
Soon will be

Jesus!
You’ve started to believe
The things they say of you
You really do believe
This talk of God is true

And all the good you’ve done
Will soon be swept away
You’ve begun to matter more
Than the things you say

Listen Jesus
I don’t like what I see
All I ask is that you listen to me
And remember
I’ve been your right hand man all along
You have set them all on fire
They think they’ve found the new Messiah
And they’ll hurt you when they find they’re wrong

I remember when this whole thing began
No talk of God then, we called you a man
And believe me
My admiration for you hasn’t died
But every word you say today
Gets twisted ’round some other way
And they’ll hurt you if they think you’ve lied

Nazareth’s most famous son
Should have stayed a great unknown
Like his father carving wood
He’d have made good
Tables, chairs and oaken chests
Would have suited Jesus best
He’d have caused nobody harm
No one alarm

Listen Jesus, do you care for your race?
Don’t you see we must keep in our place?
We are occupied
Have you forgotten how put down we are?
I am frightened by the crowd
For we are getting much too loud
And they’ll crush us if we go too far
If we go too far

Listen Jesus to the warning I give
Please remember that I want us to live
But it’s sad to see our chances weakening with ev’ry hour
All your followers are blind
Too much heaven on their minds
It was beautiful, but now it’s sour
Yes it’s all gone sour
Ah — ah ah ah — ah
God Jesus, it’s all gone sour

Listen Jesus to the warning I give
Please remember that I want us to live
So come on, come on, listen to me.
Come on, listen, listen to me.
Come on and listen to me.

Judas, Jesus Christ Superstar

There You Go


You’re gonna break another heart, you’re gonna tell another lie
Well here I am and there you go, you’re gone again
I know you’re gonna be the way you’ve always been
Breakin’ hearts and tellin’ lies is all you know
Another guy gives you the eye and there you go
There you go, you’re gone again
I should have known, I couldn’t win
There you go, you’re by his side
You’re gonna break another heart, you’re gonna tell another lie

Because I love you so I take much more than I should take
I want you even though I know my heart is gonna break
You build me up and for a while I’m all a-glow
Then your fickle heart sees someone else and there you go
Thre you go, you’re gone again
I should have known, I couldn’t win
There you go, you’re by his side
You’re gonna break another heart, you’re gonna tell another lie

Johnny Cash, There You Go

O autor aos seus versos

Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz e tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco,
Que não pode cantar com melodia
Um peito de gemer cansado e rouco.

Bocage, O autor aos seus versos

Felizes…

Entrei na casa. Apenas a lareira fria, as janelas fechadas a moldarem sombras finas no escuro. Do silêncio, da penumbra, um crescer de espectros, memórias? não, vultos que se recusavam a ser memórias, ou talvez uma mistura de carne e luz ou sombra. E vi-te pensei-te lembrei-te, à mesa, sentado no teu lugar, e eu, a minha mãe, a minha irmã, sentados também, a rodearmos-te. Iguais ao que éramos. Ali estávamos há muito tempo, esquecidos abandonados desde um dia em que o passar das coisas parou na nossa felicidade simples singela. Como uma alegria, como se tivéssemos jantado ou esperássemos jantar ou o melhor banquete, estávamos. Felizes.

José Luis Peixoto
, in Morreste-me

Ás vezes vivo só dentro da minha cabeça

A’s vezes vivo só dentro da minha cabeça,
só para lá, para dentro da minha cabeça.
Por exemplo, se houver só duas coisas a lembrar,
fecho-as logo entre quatro paredes que apertam
e sento-me para começar a vê-las lutar

Outras vezes, uma ideia escapa-me,
mergulha, viscosa, escorregadia, por um tubo de prata,
contorcido de velhas voltas que sufocam outras voltas,
até morrer num olho cansado e
deito-me a pensar se pela escadaria partida
de uma lágrima, a devo ou não libertar.

A maior parte das vezes acontece-me,
ainda dentro da minha cabeça,
não saber quando parar.
Aí, em posição fatal, aperto-a entre as mãos,
e fico, sem queixume ou som, apenas à espera
que alguém me venha buscar.

Fernando Ribeiro, in As Feridas Essenciais

Stephen Lynch live at El Ray

Stephen Lynch live at El Ray

Estrangeiro

Sou um estrangeiro neste mundo.

Sou um estrangeiro, e há na vida do estrangeiro uma solidão pesada e um isolamento doloroso. Sou assim levado a pensar sempre numa pátria encantada que não conheço, e a sonhar com os sortilégios de uma terra longínqua que nunca visitei.

Sou um estrangeiro para a minha alma. Quando a minha língua fala, o meu ouvido estranha-lhe a voz. Quando o meu Eu interior ri ou chora, ou se entusiasma, ou treme, o meu outro Eu estranha o que ouve e vê, e a minha alma interroga a minha alma. Mas permaneço desconhecido e oculto, velado pelo nevoeiro, envolto no silêncio.

Sou um estrangeiro para o meu corpo. Todas as vezes que me olho ao espelho, vejo no meu rosto algo que a minha alma não sente, e percebo nos meus olhos algo que as minhas profundezas não reconhecem.

Quando caminho nas ruas da cidade, os meninos seguem-me gritando: “Eis o cego, demos-lhe um cajado que o ajude.” Fujo deles. Mas encontro outro grupo de moças que me seguram pelas abas da roupa, dizendo: “É surdo como a pedra. Enchamos os seus ouvidos com canções de amor e desejo.” Deixo-as correndo. Depois, encontro um grupo de homens que me cercam, dizendo: “É mudo como um túmulo, vamos endireitar-lhe a língua.” Fujo deles com medo. E encontro um grupo de anciãos que apontam para mim com dedos trémulos, dizendo: “É um louco que perdeu a razão ao frequentar as fadas e os feiticeiros.”

Sou um estrangeiro neste mundo.
Sou um estrangeiro e já percorri o mundo do Oriente ao Ocidente sem encontrar a minha terra natal, nem quem me conheça ou se lembre de mim.

Acordo pela manhã, e acho-me prisioneiro num antro escuro, frequentado por cobras e insectos. Se sair à luz, a sombra do meu corpo segue-me, e as sombras da minha alma precedem-me, levando-me aonde não sei, oferecendo-me coisas de que não preciso, procurando algo que não entendo. E quando chega a noite, volto para a casa e deito-me numa cama feita de plumas de avestruz e de espinhos dos campos.

Ideias estranhas atormentam a minha mente, e inclinações diversas, perturbadoras, alegres, dolorosas, agradáveis. À meia-noite, assaltam-me fantasmas de tempos idos. E almas de nações esquecidas fitam-me. Interrogo-as, recebendo por toda resposta um sorriso. Quando procuro segura-las, fogem de mim e desvanecem-se como fumaça.

Sou um estrangeiro neste mundo.
Sou um estrangeiro e não há no mundo quem conheça uma única palavra do idioma da minha alma…

Caminho na selva inabitada e vejo os rios correrem e subirem do fundo dos vales ao cume das montanhas. E vejo as árvores desnudas se cobrirem de folhas num só minuto. Depois, as suas ramas caem no chão e transformam-se em cobras pintalgadas.

E as aves do céu voam, pousam, cantam, gorgeiam e depois param, abrem as asas e viram mulheres nuas, de cabelos soltos e pescoços esticados. E olham para mim com paixão e sorriem com sensualidade. E estendem as suas mãos brancas e perfumadas. Mas, de repente, estremecem e somem como nuvens, deixando o eco de risos irónicos.

Sou um estrangeiro neste mundo.

Sou um poeta que põe em prosa o que a vida põe em versos, e em versos o que a vida põe em prosa. Por isto, permanecerei um estrangeiro até que a morte me rapte e me leve para a minha pátria.

Khalil Gibran, Temporais

Às vezes

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas.

Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.

A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.

Então porque digo eu das coisas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ser senão o visível!

Fernando Pessoa, Ás vezes..

Coma Black

I would’ve told her then
She was the only thing
That I could love, in this dying world
But the simple word, of love itself
Already died and went away