É tarde, meu amor

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é tarde meu amor
estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva de meu corpo sofrido
agora, tuas máquinas trituraram-me, cospem-me, interrompem o sono
habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais…

a solidão tem dias mais cruéis

tentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro…quis ser grande e morrer contigo
enfeitar-me com as tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda…cantar-te os gestos com ternura
mas não

águas, águas inquinadas pulsando dentro do meu corpo, como um peixe ferido, louco
em mim a lama… e o visco inocente dos teus náufragos sem nome-de-rua, nem estátua-de-jardim-público
aceito o desafio do teu desdém

na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição
apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantam

Al Berto, in O Medo, Livro Quarto – Trabalhos do Olhar

Ausente

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ausente de mim, quando estiver cansado de ti, sem saber para onde fugir, tu estarás no meu tremer de frio que não existe, no sorriso de meu rosto de álcool. no meu susto de estar vivo, uma agulha costura os orgãos uns aos outros para que a dor não se espalhe pelo corpo. a dor, este feixe de nomes vibrando junto ao coração. um dia estarei longe, muito longe de mim e de ti. terei perdido o corpo que te sente, irremediavelmente.

Al Berto, in O Medo, Livro Primeiro – À Procura do Vento Num Jardim D’Agosto

Sem Remédio

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Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou…
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!

Florbela Espanca, Sem Remédio

She isn’t real


I can’t make her real.

Palavras

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As minhas palavras aqui são como as palavras escritas num papel branco que se mantém branco com essas palavras invisíveis de alguém que as leia, palavras a envelhecerem por não haver quem as compreenda, a perderem o seu significado, a misturarem-se imperceptíveis numa brisa em que ninguém repara. (…) todo o meu olhar é desperdiçado por saber que tu não vês nada.

José Luís Peixoto, in Nenhum Olhar

Dead End

We’re too numb to feel,
The downfall starts right here.

Monotonia

Em sua essência a vida é monótona. A felicidade consiste pois numa adaptação razoavelmente exacta à monotonia da vida. Tornarmo-nos monótonos é tornarmo-nos iguais à vida; é, em suma, viver plenamente. E viver plenamente é ser feliz.
Os ilógicos doentes riem – de mau grado, no fundo – da felicidade burguesa, da monotonia da vida do burguês que vive em regularidade quotidiana e, da mulher dele que se entretém no arranjo da casa e se distrai nas minúcias de cuidar dos filhos e fala dos vizinhos e dos conhecidos. Isto, porém, é que é a felicidade.
Parece, a princípio, que as cousas novas é que devem dar prazer ao espírito; mas as cousas novas são poucas e cada uma delas é nova só uma vez. Depois, a sensibilidade é limitada, e não vibra indefinidamente. Um excesso de cousas novas acabará por cansar, porque não há sensibilidade para acompanhar os estímulos dela.
Conformar-se com a monotonia é achar tudo novo sempre. A visão burguesa da vida é a visão científica; porque, com efeito, tudo é sempre novo, e antes de este hoje nunca houve este hoje.
É claro que ele não diria nada disto. Às minhas observações, limita-se a sorrir; e é o seu sorriso que me traz, pormenorizadas, as considerações que deixo escritas, por meditação dos pósteros.

Fernando Pessoa, in Reflexões Pessoais

Carbon Kid

And when this half is over and we claim our second skin,
We can compliment each other on the state that we are in,
And when we leave this place forever and we’re floating round in space,
Take the easy way to heaven with a smile upon your face.

Cansa Ser

Cansa ser, sentir dói, pensar destruir.
Alheia a nós, em nós e fora,
Rui a hora, e tudo nela rui.
Inutilmente a alma o chora.

De que serve? O que é que tem que servir?
Pálido esboço leve
Do sol de inverno sobre meu leito a sorrir…
Vago sussuro breve.

Das pequenas vozes com que a manhã acorda,
Da fútil promessa do dia,
Morta ao nascer, na ‘sperança longínqua e absurda
Em que a alma se fia.

Fernando Pessoa

Where is Everybody?

Did you happen to catch
Or did it happen so fast
What you thought would always last
Has passed you by
Is everything speeding up
Or am I slowing down
Just spinning around
And I don’t know why
All the pieces don’t fit
Thought I didn’t give a shit
I never wanted to be like you
But for all I aspire
I am really a liar
And I’m running out of things I can do

I’d like to stay
But every day
Everything pushes me further away
If you could show
Help me to know
How it’s supposed to be
Where did it go?

Pleading and
Needing and
Bleeding and
Breeding and
Feeding
Exceeding
Where is everybody?
Trying and lying
Defying, denying
Crying and dying
Where is everybody?

Well okay, enough,
You’ve had your fun
But come on there has to be someone
That hasn’t yet become
So numb and succumb
And god damn I am so tired of pretending
Of wishing I was ending
When all I’m really doing is trying to hide
And keep it inside
And fill it with lies
Open my eyes?
Maybe I wish I could try

Pleading and needing
And bleeding and breeding
And feeding exceeding
Where is everybody?
Trying and lying
Defying, denying
Crying and dying
Where is everybody?

Nine Inch Nails, Where is Everybody?