É tarde, meu amor

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é tarde meu amor
estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva de meu corpo sofrido
agora, tuas máquinas trituraram-me, cospem-me, interrompem o sono
habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais…

a solidão tem dias mais cruéis

tentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro…quis ser grande e morrer contigo
enfeitar-me com as tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda…cantar-te os gestos com ternura
mas não

águas, águas inquinadas pulsando dentro do meu corpo, como um peixe ferido, louco
em mim a lama… e o visco inocente dos teus náufragos sem nome-de-rua, nem estátua-de-jardim-público
aceito o desafio do teu desdém

na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição
apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantam

Al Berto, in O Medo, Livro Quarto – Trabalhos do Olhar

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One thought on “É tarde, meu amor

  1. “a solidão tem dias mais cruéis” …*suspiro*

    Escolhes com cada excerto…

    Oh well, somos todos fúteis, e hipócritas… A partir do momento em que fazemos parte de uma sociedade ocidental temos quase obrigatoriamente de o ser…
    E não, a máquina não pára… Nem que desaparecessem 200, 300, 1000… Podia enfraquecer momentaneamente, mas parar nunca…

    E of course I don’t mind *.* é sempre (muito) bom ter alguém com quem falar destas coisas à vontade… :)

    Like

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