Conhece-te a ti próprio.

Conhece-te a ti próprio – eis o que é difícil.
Ainda posso conhecer os outros, mas a mim mesmo não consigo conhecer-me. Um fio – instintos e um fantasma… Dos outros faço ideia mais ou menos aproximada, de mim não faço ideia nenhuma.

Há uma disparidade entre mim e mim.Há em mim o homem correcto, o homem igual a todos os homens – e o homem que lá dentro sonha, grita e é capaz, por insignificâncias, de imaginar um terramoto ou de desejar uma catástrofe. O que eu me tenho desfeito dos meus inimigos – o que é razoável – mas dos meus amigos que me fazem sombra!…
O meu verdadeiro ser não é aquele que compus, recalcando lá para o fundo os instintos e as paixões; o meu verdadeiro ser é uma árvore desgrenhada – é o fantasma que nos momentos de exaltação me leva a rasto para actos que reprovo. Só a custo o contenho. Parece que está morto, e está mais vivo que o histrião que represento. Asseguro este simulcaro até à cova com os hábitos de compressão que adquiri. Não sei se a maior parte dos homens é assim – eu sou assim: sou um fantasma desesperado.

O meu primeiro impulso é destruir. Depois recuo. E o meu segundo impulso é talvez atraiçoar e mentir. É praticar actos horríveis de sensualidade e de instinto. E se resisto, resisto esfarrapado. Resisto com discussões interiores que nunca acabam e um esforço que me deixa inutilizado e exausto. Resisto, arrependido de não me deixar levar até ao fim – e talvez para me dar em espectáculo a outra personagem que assiste e comenta, que assiste e aplaude com escárnio. Por isso, quando me venço, não tenho mérito nenhum; é por fraqueza ou por vaidade que não pratico o mal. E com o tempo tenho ficado cada vez pior. Mais seco e pior. Desesperado e pior. A vida, em lugar de me elevar, tem-me transformado numa ruína, onde nenhuma raiz encontra suco.
Outra coisa: só extraio sensações da vida. Sou um monstro que existe para traduzir a vida em palavras e mais nada, até chegar ao automatismo de suprimir a realidade a todos os sentimentos que não impressionam a máquina em que me transformo e que bem queria agora inutilizar.

Raul Brandão, in O Pobre de Pedir

Zero.

my reflection, dirty mirror
there’s no connection to myself
i’m your lover, i’m your zero
i’m the face in your dreams of glass

so save your prayers
for when you’re really gonna need ’em
throw out your cares and fly
wanna go for a ride?

she’s the one for me
she’s all i really need
unless she’s the one for me

emptiness is loneliness, and loneliness is cleanliness
and cleanliness is godliness, and god is empty just like me

intoxicated with the madness, i’m in love with my sadness
bullshit fakers, enchanted kingdoms
the fashion victims chew their charcoal teeth
i never let on, that i was on a sinking ship
i never let on that i was down

you blame yourself, for what you can’t ignore
you blame yourself for wanting more

she’s the one for me
she’s all i really need
unless she’s the one for me
she’s my one and only

O Assombro da Incoerência do Nosso Ser

Sou um mero espectador da vida, que não tenta explicá-la. Não afirmo nem nego. Há muito que fujo de julgar os homens, e, a cada hora que passa, a vida me parece ou muito complicada e misteriosa ou muito simples e profunda. Não aprendo até morrer – desaprendo até morrer. Não sei nada, não sei nada, e saio deste mundo com a convicção de que não é a razão nem a verdade que nos guiam: só a paixão e a quimera nos levam a resoluções definitivas.

O papel dos doidos é de primeira importância neste triste planeta, embora depois os outros tentem corrigi-lo e canalizá-lo… Também entendo que é tão difícil asseverar a exactidão dum facto como julgar um homem com justiça.
Todos os dias mudamos de opinião. Todos os dias somos empurrados para léguas de distância por uma coisa frenética, que nos leva não sei para onde. Sucede sempre que, passados meses sobre o que escrevo – eu próprio duvido e hesito. Sinto que não me pertenço…
É por isso que não condeno nem explico nada, e fujo até de descer dentro de mim próprio, para não reconhecer com espanto que sou absurdo – para não ter de discriminar até que ponto creio ou não creio, e de verificar o que me pertence e o que pertence aos mortos. De resto isto de ter opiniões não é fácil. Sempre que me dei a esse luxo, fui forçado a reconhecer que eram falsas ou erróneas.

Raul Brandão, in Se Tivesse de Recomeçar a Vida

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é o fogo que se apaga e o medo da solidão

o problema é da saída não estar aqui a mão.

passo o tempo a ir embora.
o corpo foi, eu demoro, eu demoro.
eu demoro.

Eventualmente

eventualmente.jpg

o peito deixa de doer.

não

faz sentido.

There’s something about this day..

vacuum.jpg

I’m too young to know I’m young
I’m too selfish to be strong

..

There’s something about this day
That feels a lot like yesterday..

K’s Choice – Somewhere.mp3

Tear

the lights came on fast
lost in motorcrash
gone in a flash unreal
but you knew all along
you laugh the light
I sing the songs
to watch you numb

I saw you there
you were on your way
you held the rain
and for the first time
heaven seemed insane
cause heaven is to blame
for taking you away

do you know the way that I can?
do you know the way that I can’t lose?
do you know the things that I can?
do you know the things that I can do?

where is your heart? where is your heart gone to?
tear me apart
tear me apart from you
you laugh the light I cry the wound
in gray afternoons

I saw you there
you were on your way
you kissed me cold
and for the first time
heaven seemed insane
for taking you away
cause heaven is to blame
for taking you away

the lights came to pass
dead opera motorcrash
gone in a flash unreal
in nitrous overcast

do you know the way that I can?
do you know the way that I can’t choose?
do you know the things that I can?
do you know the things that I can’t lose?

tear me apart
tear me apart from you
where is your heart?
where has your heart run to?

I am..

sky.png

..all the days
that you choose to ignore

You are all I need
I’m in the middle of your picture
Lying in the reeds

It’s all wrong
It’s all right
It’s all wrong

Elephant

elephant.jpg

– Hello.

Hi.

What’s wrong?

Nothing.

– You were crying.

Yeah.

– Is it something bad?

…I don’t know.

Beethoven – Piano sonata no14 (1st movement).mp3

Gus Van Sant’s Elephant

Folsom Prison Blues

I hear the train a comin’
it’s rolling round the bend
and I ain’t seen the sunshine since I don’t know when,
I’m stuck in Folsom prison, and time keeps draggin’ on
but that train keeps a rollin’ on down to San Antone.

When I was just a baby my mama told me “Son,
always be a good boy, don’t ever play with guns.”
But I shot a man in Reno just to watch him die
now every time I hear that whistle I hang my head and cry..

I bet there’s rich folks eating in a fancy dining car
they’re probably drinkin’ coffee and smoking big cigars.
But I know I had it coming, I know I can’t be free
but those people keep a movin’
and that’s what tortures me…

Well if they’d free me from this prison,
if that railroad train was mine
I bet I’d move it all a little further down the line
far from Folsom prison, that’s where I want to stay
and I’d let that lonesome whistle blow my blues away…

Johnny Cash – Folsom Prison Blues.mp3

this is *not* Johnny Cash singing