Eternamente.

E foi muito devagar que o seu corpo imóvel se transformou nos gestos tão lentos que a levaram a ficar, de novo, sentada na cama. E foi muito devagar que ele subiu a uma cadeira e, com as duas mão, tirou a caçadeira que o pai, havia tempo, guardara em cima do armário. E estavam distantes. Estavam sozinhos. Sentiram: estamos sozinhos.

Ele caminhou com a caçadeira para a cozinha. Ela deitou-se sobre a cama. Distantes, como se estivessem na presença um do outro, ela sentiu os lençóis brancos, estendidos, limpos, sobre o corpo; ele apontou o cano da caçadeira ao rosto e sentiu a ponta do cano nos lábios. Durante esse instante, ao mesmo tempo, estiveram lado a lado, de mão dada, e deslizaram juntos sobre a distância infinita dos campos, o horizonte sussurrado ao longe, as árvores a sucederem-se por baixo dos seus corpos, a terra a deslizar, a imensidão da distância, e passaram juntos pela última vez em todos os lugares do mundo e, juntos, preparam-se para adormecer eternamente.

José Luis Peixoto, in Antídoto

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e vai sair, agora em abril, um novo livro de José Luis Peixoto.

e eu estou tão contente. (:

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