escrevo contra o medo.

o quarto é branco e tem uma reprodução de Las Meninas pendurada na parede em frente à cama, por cima da cómoda. na outra parede, à direita de quem entra, o espelho onde nunca me encontro devolve-me a imagem desfocada doutro quarto, roupa espalhada pelo chão, livros, cadeiras, uma jarra com flores murchas…

não consigo dormir embora já tenha engolido uma dose dupla de soníferos. tenho o caderno onde escrevo assente numa prancheta de madeira. espera-me uma infindável noite, escrevo contra o medo.

o metal da lua nova perfura-me a memória com as suas claridades. uma aranha cinzenta, minúscula, tece argênteas teias de sombra ao canto do espelho redondo da cómoda. são quatro e meia da manhã, pelo menos aqui dentro do quarto. lá fora, é possível que ainda não seja tão tarde, ou não tenha dado hora nenhuma, ou ainda seja cedo lá fora e aqui dentro o tempo não exista.

por isso sonho com uma velhice silenciosa e melancólica, a mão esquecida sobre a cabeça de um cão. o olhar preso ao cíclico fascínio das águas e dos jardins. sonho com uma velhice onde a solidão não doa. solidão superpovoada de amigos, de silhuetas andróginas para o amor, de rostos belos como sensações de sorrisos, de mãos que aprenderam a falar.

uma ave liquefaz-se na luminosidade e escorre para os olhos, desce voando sobre a boca. a noite magoa nesta água esvoaçante. de mim me depeço, como um barco que solta as velas e zarpa ao entardecer, tacteio o caminho do horizonte ao encontro da manhã. a noite corrói, quando descubro que ainda sou capaz de amar.

que claridade explode dentro de mim?

que incertezas me devolve este navegar?

quase me esqueci de que não estou sozinho. toco ao de leve no rosto de M., o coração deixa de sangrar. olho-o dormir a meu lado, longe da minha insónia. ergo-me para o vácuo que nos envolve e chamo por mim. pouco me interessa o que possa acontecer quando acordares, vi os dragões da minha infância flutuarem no vento da alba. olho-te, e isso basta.

Al Berto, in O Medo

quando voltaste,

os teus olhos a as tuas mãos eram
chamas a falarem para mim.

eu estava na cama onde nasci vezes de mais.

peço-te, nunca esqueças o meu olhar de quando
voltaste.

era de noite. eu não esperava mais nada.

e tu voltaste.

(…)

voltaste.

eu sorri tanto.
fui feliz e, nesse momento, morri.

José Luis Peixoto, in A Casa, A Escuridão

and for a minute there..

.. I lost myself.

pessimismo da inteligência/optimismo da vontade

Em geral, o senhor faz declarações políticas optimistas, mesmo quando em privado está muito pessimista.

— Sim, estou. E as minhas declarações nunca são muito optimistas, porque para cada acontecimento social que nos importa, que nos toca, sou sensível às contradições manifestas ou ainda pouco aparentes; vejo os erros, os riscos, tudo o que pode impedir uma situação de evoluir num sentido favorável à liberdade. E aí sou pessimista, porque os riscos serão efectivamente enormes. Veja Portugal, onde o tipo de socialismo que pretendemos tem hoje uma pequena possibilidade que não tinha de modo nenhum antes de 25 de Abril, e que contudo corre os maiores riscos de ser ainda repelido por muitíssimo tempo. Se me colocar num plano geral, penso: ou o homem está lixado — e neste caso não apenas está lixado como nunca existiu: os homens não terão sido mais do que uma espécie, como as formigas — ou então o homem far-se-á ao realizar o socialismo libertário. Quando considero os factos sociais em especial, tenho tendência a pensar que o homem está lixado. Mas se considero o conjunto de todas as condições necessárias para que o homem seja, penso que a única coisa a fazer é sublinhar, salientar e apoiar com todas as forças o que nas situações políticas e sociais específicas pode conduzir a uma sociedade de homens livres. Se não fizermos isto, aceitamos que o homem seja um monte de esterco.

Era o que dizia Gramsci: «É preciso lutar com o pessimismo da inteligência e com o optimismo da vontade.-»

— Não seria exactamente assim que eu formularia isso. É preciso lutar, isso é verdade. Mas não se trata de voluntarismo. Estivesse eu convencido de que toda a luta pela liberdade está necessariamente votada ao fracasso, e lutar não teria qualquer sentido. Não, se não estou completamente pessimista é em primeiro lugar porque sinto em mim exigências que não são apenas minhas, mas que em mim são as de todos os homens. Por outras palavras, é a certeza vivida da minha própria liberdade, na medida em que é liberdade de todos, que me dá ao mesmo tempo a exigência de uma vida livre e a certeza de que essa exigência é — de forma mais ou menos clara, mais ou menos consciente — a de cada um.

Jean-Paul Sartre, in Situações X – Politica e Autobiografia
Entrevista de Michel Contat, Junho 1975

Inesperadamente.

inesperadamente

não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa, durante algum tempo, segundos, horas, não sou capaz de mais nada,

inesperadamente paro

a posição em que me encontro, de cabeça para baixo, suspensa pelo cinto de segurança, não me incomoda, o meu corpo, estranhamente, não me pesa, o embate deve ter sido violento, não me lembro, abri os olhos e estava assim, de cabeça para baixo, os braços a bater no tejadilho, as pernas soltas, o desacerto de um boneco de trapos, os olhos a fixarem-se, indolentes, numa gota de água parada num pedaço de vidro vertical, não consigo identificar os barulhos que ouço, recomeço, não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa,

são tão maçadoras as lengalengas

durante algum tempo, segundos, horas, não sou capaz de mais nada, devo ter caído muito longe da auto-estrada, a chuva estala no metal do carro, as rodas rolam em seco, gri-gri, gri-gri, grilos, não, não podem ser grilos, tic-tac, os quatro piscas, dentro da gota de água, são apenas os olhos que não se conseguem desviar, são apenas os olhos, o meu carro capotado num baldio, o meu saco de viagem preso num arbusto, as embalagens das ceras, os brindes das clientes e o caderno das contas espalhados na lama, um sapato num charco mais distante, os faróis mantêm-se acesos, a chuva, fios de pirilampos que esvoaçam até morrerem no chão, gri-gri, não podem ser grilos, em todo o lado pedacinhos de vidro que brilham muito, cristais que afugentam a noite,

não devia ter saído de casa

o líquido quente que escorre da minha boca é sangue, reconheço o sabor, a minha boca uma massa, quente, demasiado quente, enjoativa, quero mexer-me, libertar-me do cinto de segurança, as mãos não me obedecem, dois atrapalhos inábeis, as minhas pernas, duas ausências, e os olhos pousados, inertes, na gota de água cheia de luz, uma gota inundada de luz, quase a apanhar-me, a vencer-me, resisto, recomeço, não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa,

inesperadamente

não sinto dores, não tenho medo, os meus olhos afogados na gota de luz, os meus ouvidos um albergue de grilos,

neste momento posso já não existir aqui

este momento pode já não existir para mim

Dulce Maria Cardoso, in Os meus sentimentos

Hotel California

On a dark desert highway, cool wind in my hair
Warm smell of colitas, rising up through the air
Up ahead in the distance, I saw a shimmering light
My head grew heavy and my sight grew dim
I had to stop for the night
There she stood in the doorway;
I heard the mission bell
And I was thinking to myself,
this could be heaven or this could be hell

Then she lit up a candle and she showed me the way
There were voices down the corridor,
I thought I heard them say…

Welcome to the hotel california
Such a lovely place
Such a lovely face
Plenty of room at the hotel california
Any time of year, you can find it here

Her mind is tiffany-twisted, she got the mercedes bends
She got a lot of pretty, pretty boys, that she calls friends
How they dance in the courtyard, sweet summer sweat.
Some dance to remember, some dance to forget

So I called up the captain,
please bring me my wine
He said, we haven’t had that spirit here since 1969
And still those voices are calling from far away,
Wake you up in the middle of the night
Just to hear them say…

Welcome to the hotel california
Such a lovely place
Such a lovely face
They livin’ it up at the hotel california
What a nice surprise, bring your alibis

Mirrors on the ceiling,
The pink champagne on ice
And she said “we are all just prisoners here, of our own device
And in the master’s chambers,
They gathered for the feast
The stab it with their steely knives,
But they just can’t kill the beast

Last thing I remember, I was
Running for the door
I had to find the passage back
To the place I was before
“relax”, said the night man,
We are programmed to receive.
You can checkout any time you like,
But you can never leave!

Eagles, Hotel California

<3

Descontentamento.

O caso é o mesmo em todos os vícios: quer seja o daqueles que são atormentados pela indolência e pelo tédio, sujeitos a contantes mudanças de humor, quer o daqueles a quem agrada sempre mais aquilo que deixaram para trás, ou dos que desistem e caem na indolência.Acrescenta ainda aqueles que em nada diferem de alguém com um sono difícil, que se vira e revira à procura da posição certa, até que adormece de tão cansado que fica: mudando constantemente de forma de vida, permanecem naquela «novidade» até descobrirem não o ódio à mudança, mas a preguiça da velhice em relação à novidade. Acrescenta ainda os que nunca mudam, não por constância, mas por inércia, e vivem não como desejam, mas como sempre viveram. As características dos vícios são, pois, inumeráveis, mas o seu efeito apenas um: o descontentamento consigo próprio.

Este descontentamento tem a sua origem num desequilíbrio da alma e nas aspirações tímidas ou menos felizes, quando não ousamos tanto quanto desejávamos ou não conseguimos aquilo que pretendíamos, e ficamos apenas à espera. É a inevitável condição dos indecisos, estarem sempre instáveis, sempre inquietos. Tentam por todas as vias atingir aquilo que desejam, entregam-se e sujeitam-se a práticas desonestas e árduas, e, quando o seu trabalho não é recompensado, tortura-os uma vergonha fútil, arrependendo-se não de ter desejado coisas más, mas sim de as terem desejado em vão. Eles ficam então com os remorsos de terem assumido essa conduta e com medo de voltarem a incorrer nela, a sua alma é assaltada por uma agitação para a qual não encontram saída, porque não conseguem controlar nem obedecer aos seus desejos, na hesitação de uma vida que pouco se desenvolve, a alma paralisada entre os desejos abandonados.
Tudo isto se torna ainda mais grave quando, com a repulsa do sofrimento passado, se refugiam no ócio ou nos estudos solitários, que uma alma educada para os assuntos públicos não consegue suportar, desejosa de agir, inquieta por natureza e incapaz de encontrar estímulos por si mesma. Por isso, sem a distracção que as próprias ocupações representam para os que nelas andam, não suportam a casa, a solidão, as paredes; com angústia, vêem-se entregues a eles mesmos.

Séneca, in Da Tranquilidade da Alma

Ele não estava lá..

.., mas estava lá a sua ausência.

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