pessimismo da inteligência/optimismo da vontade

Em geral, o senhor faz declarações políticas optimistas, mesmo quando em privado está muito pessimista.

— Sim, estou. E as minhas declarações nunca são muito optimistas, porque para cada acontecimento social que nos importa, que nos toca, sou sensível às contradições manifestas ou ainda pouco aparentes; vejo os erros, os riscos, tudo o que pode impedir uma situação de evoluir num sentido favorável à liberdade. E aí sou pessimista, porque os riscos serão efectivamente enormes. Veja Portugal, onde o tipo de socialismo que pretendemos tem hoje uma pequena possibilidade que não tinha de modo nenhum antes de 25 de Abril, e que contudo corre os maiores riscos de ser ainda repelido por muitíssimo tempo. Se me colocar num plano geral, penso: ou o homem está lixado — e neste caso não apenas está lixado como nunca existiu: os homens não terão sido mais do que uma espécie, como as formigas — ou então o homem far-se-á ao realizar o socialismo libertário. Quando considero os factos sociais em especial, tenho tendência a pensar que o homem está lixado. Mas se considero o conjunto de todas as condições necessárias para que o homem seja, penso que a única coisa a fazer é sublinhar, salientar e apoiar com todas as forças o que nas situações políticas e sociais específicas pode conduzir a uma sociedade de homens livres. Se não fizermos isto, aceitamos que o homem seja um monte de esterco.

Era o que dizia Gramsci: «É preciso lutar com o pessimismo da inteligência e com o optimismo da vontade.-»

— Não seria exactamente assim que eu formularia isso. É preciso lutar, isso é verdade. Mas não se trata de voluntarismo. Estivesse eu convencido de que toda a luta pela liberdade está necessariamente votada ao fracasso, e lutar não teria qualquer sentido. Não, se não estou completamente pessimista é em primeiro lugar porque sinto em mim exigências que não são apenas minhas, mas que em mim são as de todos os homens. Por outras palavras, é a certeza vivida da minha própria liberdade, na medida em que é liberdade de todos, que me dá ao mesmo tempo a exigência de uma vida livre e a certeza de que essa exigência é — de forma mais ou menos clara, mais ou menos consciente — a de cada um.

Jean-Paul Sartre, in Situações X – Politica e Autobiografia
Entrevista de Michel Contat, Junho 1975

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