Quando me cansei de mentir a mim próprio,

comecei a escrever um livro de poesia.

Foi há duas horas que decidi, mas foi há muito

mais tempo que comecei a cansar-me. O cansaço

é uma pele gradual como o outono. Pausa.

Pousa devagar sobre a carne, como as folhas

sobre a terra, e atravessa-a até aos ossos,

como as folhas atravessam a terra e tocam

os mortos e tornam-se férteis a seu lado.

A cidade continua nas ruas, as raparigas riem,

mas há um segredo que fermenta no silêncio.

São as palavras, livres, os livros por escrever,

aquilo que virá com as estações futuras.

Há sempre esperança no fundo das avenidas.

Mas há poças de água nos passeios. Há frio,

há cansaço, há duas horas que decidi, outono.

E o meu corpo não quer mentir, e aquilo que

não é o meu corpo, o tempo, sabe que

tenho muitos poemas para escrever.

(Lisboa, Abril de 2003)

José Luis Peixoto, in Gaveta de Papéis, Postais

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