até quando poderei suportar a minha própria ausência?

não escrevo a ninguém, deixei de dar notícias. ninguém precisa de saber onde me encontro, se cheguei bem, se vou partir, se mudei de rosto ou de máscara.

um pássaro, dois homens puxando redes.

até quando poderei suportar a minha própria ausência?

e a vertigem?

(…)

Al Berto, in O Medo


pernoito no interior do corpo desarrumado
o medo invade o penumbroso corredor
descubro uma cintilação de água no estuque
uma cicatriz de cristais e de bolor abre-se
porosa ao contacto dos dedos indica
que não haverá esquecimento ou brisa
para limpar o tempo imemorial da casa

deste simulado sono ficou-lhe o amargo iodo
as madeiras encerradas cobertas de poeira
ervas secas à chuva molhos de rosmaninho
junquilhos bocas-de-lobo silenas trevo
mas nenhuma fuga foi recomeçada
a infância permanece triste onde a abandonei
quase não vive
no entanto ouço-a respirar dentro de mim

agora tudo é muito diferente
recomeço a viver a partir do vazio
da treva dos dias em silêncio
por entre a pele e um feixe de magníficas veias
sinto o pássaro da velhice arrastando as asas
onde desenvolve o calmo voo lunar

enumero cuidadosamente os objectos classifico-os
por tamanhos por texturas por funções
quero deixar tudo arrumado quando a loucura vier
da extremidade aguçada do corpo alado
e o resto for devassado por um estilhaço de asa

então a vida abater-se-á sobre a folha de papel
onde verso a verso
me ilumino e me desgasto

Al Berto, in O Medo (Uma Existência de Papel: Vigílias)

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