4.

img_969

passo os dias a observar os objectos

sinto o tempo devorá-los impiedosamente

arrasto comigo o cheiro amargo da memória

mascaro os dias com palavras cujo significado perdi

mas nenhuma felicidade vem alojar-se no coração

o mundo que te rodeou continua inaudível e perdido

apodrece nas fotografias arrumadas dentro da gaveta

debaixo da roupa engomada

o aparo da caneta imobiliza por trás de cada palavra

o som dos poucos objectos com que partilhámos a vida

fica com as máscaras de tinta a morderem-te a noite

eu parto para qualquer país onde não exista

Al Berto, in O Medo

Advertisements

até quando poderei suportar a minha própria ausência?

não escrevo a ninguém, deixei de dar notícias. ninguém precisa de saber onde me encontro, se cheguei bem, se vou partir, se mudei de rosto ou de máscara.

um pássaro, dois homens puxando redes.

até quando poderei suportar a minha própria ausência?

e a vertigem?

(…)

Al Berto, in O Medo


pernoito no interior do corpo desarrumado
o medo invade o penumbroso corredor
descubro uma cintilação de água no estuque
uma cicatriz de cristais e de bolor abre-se
porosa ao contacto dos dedos indica
que não haverá esquecimento ou brisa
para limpar o tempo imemorial da casa

deste simulado sono ficou-lhe o amargo iodo
as madeiras encerradas cobertas de poeira
ervas secas à chuva molhos de rosmaninho
junquilhos bocas-de-lobo silenas trevo
mas nenhuma fuga foi recomeçada
a infância permanece triste onde a abandonei
quase não vive
no entanto ouço-a respirar dentro de mim

agora tudo é muito diferente
recomeço a viver a partir do vazio
da treva dos dias em silêncio
por entre a pele e um feixe de magníficas veias
sinto o pássaro da velhice arrastando as asas
onde desenvolve o calmo voo lunar

enumero cuidadosamente os objectos classifico-os
por tamanhos por texturas por funções
quero deixar tudo arrumado quando a loucura vier
da extremidade aguçada do corpo alado
e o resto for devassado por um estilhaço de asa

então a vida abater-se-á sobre a folha de papel
onde verso a verso
me ilumino e me desgasto

Al Berto, in O Medo (Uma Existência de Papel: Vigílias)

escrevo contra o medo.

o quarto é branco e tem uma reprodução de Las Meninas pendurada na parede em frente à cama, por cima da cómoda. na outra parede, à direita de quem entra, o espelho onde nunca me encontro devolve-me a imagem desfocada doutro quarto, roupa espalhada pelo chão, livros, cadeiras, uma jarra com flores murchas…

não consigo dormir embora já tenha engolido uma dose dupla de soníferos. tenho o caderno onde escrevo assente numa prancheta de madeira. espera-me uma infindável noite, escrevo contra o medo.

o metal da lua nova perfura-me a memória com as suas claridades. uma aranha cinzenta, minúscula, tece argênteas teias de sombra ao canto do espelho redondo da cómoda. são quatro e meia da manhã, pelo menos aqui dentro do quarto. lá fora, é possível que ainda não seja tão tarde, ou não tenha dado hora nenhuma, ou ainda seja cedo lá fora e aqui dentro o tempo não exista.

por isso sonho com uma velhice silenciosa e melancólica, a mão esquecida sobre a cabeça de um cão. o olhar preso ao cíclico fascínio das águas e dos jardins. sonho com uma velhice onde a solidão não doa. solidão superpovoada de amigos, de silhuetas andróginas para o amor, de rostos belos como sensações de sorrisos, de mãos que aprenderam a falar.

uma ave liquefaz-se na luminosidade e escorre para os olhos, desce voando sobre a boca. a noite magoa nesta água esvoaçante. de mim me depeço, como um barco que solta as velas e zarpa ao entardecer, tacteio o caminho do horizonte ao encontro da manhã. a noite corrói, quando descubro que ainda sou capaz de amar.

que claridade explode dentro de mim?

que incertezas me devolve este navegar?

quase me esqueci de que não estou sozinho. toco ao de leve no rosto de M., o coração deixa de sangrar. olho-o dormir a meu lado, longe da minha insónia. ergo-me para o vácuo que nos envolve e chamo por mim. pouco me interessa o que possa acontecer quando acordares, vi os dragões da minha infância flutuarem no vento da alba. olho-te, e isso basta.

Al Berto, in O Medo

ao certo, que quererá isto dizer?

começar o dia assim: desenhando passos circulares na lama da azinhaga.
cães, cheiro a estrume, a solidão paga-se logo de manhã cedo, como uma chuva que nos fustiga…
…estou desatento ao que se passa comigo. não consigo avançar uma linha, dormito mais do que escrevo. tenho a alma triste.
ao certo, que quererá isto dizer?

Al Berto, in O Medo

sentado no fundo dum espelho

faz frio e o tempo enevoado deprime-me. a noite desgasta-me.
quem me dera conseguir não pensar em nada, deambular pela vida sem desejar, sem projectar fosse o que fosse, nem querer possuir mais que a humilde condição de continuar vivo.
talvez sentar-me junto ao mar e olhar as águas incendiadas. milhares de aves sobrevoando o cais. o frio entra pela janela, acorda-me. não sei o que hei-de fazer com estas visões.

não escrevo a ninguém, deixei de dar notícias. ninguém precisa de saber onde me encontro, se cheguei bem, se vou partir, se mudei de rosto ou de máscara.
um pássaro, dois homens puxando redes.
até quando poderei suportar a minha própria ausência?
e a vertigem?
o mar é um jardim que me afasta, de momento, de qualquer morte. continuar ausente é com certeza a melhor maneira de estar vivo, atento aos estremecimentos do mundo.
sentado no fundo dum espelho tomo a realidade por reflexo, escuto as estrelas, sou espectador das marés, do vento, da chuva, não tenho intenção de inventar um novo rosto para o corpo que perdi.

Al Berto, in O Medo

Mar

Nunca conseguiu viver longe do mar.
A sua adolescência ficara cheia de dunas e de camarinhas, de falésias e águias, de tempestades, de nomes de barcos e de peixes; de aves e de luz coalhada à roda duma ilha.
Conhecera a ansiedade daqueles que, ao entardecer, olham meios cegos a vastidão incendiada do oceano – e ninguém sabe se esperam alguma coisa, alguma revelação, ou se estão ali sentados, apenas, para morrer.
Aprendera, também, que o mar, aquele mar – tarde ou cedo – só existiria dentro de si: como uma dor afiada, como um vestígio qualquer a que nos agarramos para suportar a melancólica travessia do mundo.
Depois, partiu para longe. E durante anos recordou, em sonhos, o mar avistado pela última vez ao fundo das ruas. Procurou-o sempre por onde andou, obsessivamente – mas nunca chegou a encontrá-lo.
Certa noite de bruma fria, em Antuérpia, no Zanzi-Bar, julgou ouvir o mar que perdera na voz dum jovem marinheiro grego. Mas não, o marulho que aquela voz derramava, junto à sua orelha, era de outro mar – fechado, calmo – propício aos amores inquietos e à lassidão embriagante do sol e do vício.
Anos mais tarde, em Delos, haveria de reconhecer a voz do marinheiro no rebentar das ondas, em redor da ilha, como um eco: onde te vi despir regresso agora / para adormecer ou chorar… e a noite caiu subitamente sobre ele, sobre a ilha e sobre o sonolento coração das leoas em pedra.
Uma outra vez, perto de Gibraltar, uma mulher idosa quis ler-lhe as linhas emaranhadas da mão. Já não se lembra o que lhe contou a mulher, acerca da vida e dos rumos da paixão. Recorda somente o que ela lhe disse ao separarem-se:
– Tens nos olhos a cor triste do mar que perdeste.
E passou bastante tempo antes que o homem voltasse ao seu país. Quando o fez, foi ao encontro do mar.
Largou a cidade e os amigos, a casa, o conforto, a noite, o trabalho e tudo o mais. Viajou em direcção ao sul, com a certeza de que jamais encontraria o mar perdido, em lugar incerto, a meio da sua vida.
Sabia agora que nenhum mar existia fora do seu corpo, e que tinha sido na perda irremediável de um mar que adquirira um outro onde, por noites de inquitante insónia, podia encontrar-se consigo mesmo e envelhecer sem sobressaltos; afastado da vã alegria dos homens e da pobreza do mundo.
Ao chegar junto do mar sentou-se no cimo da duna, como dantes, e esperou. Esperou que o mar guardado no fundo de si transbordasse, e fosse ao encontro daquele que perdera e se espraia agora à sua frente.

Ainda hoje permanece sentado, no mesmo lugar – esperando o instante em que os dois mares se dissiparão um no outro, para sempre.
Está cansado da guerra com as palavras e do veneno dos homens, tem os olhos queimados pelo sal. Os dedos adquiriram a rugosidade da areia e dos rochedos; da sua boca solta-se um marulhar surdo, muito antigo, que os dias e a solidão arrastam devagar para a luminosa euforia das águas.

Al Berto, in O Anjo Mudo

.

Joe Hisaishi – Mother.mp3

não há riso naquilo que escrevo.

almoço sozinho. chove, é preciso cultivar a solidão. nada me dói e ninguém bateu à porta. não há riso no dia a dia, e isto nada tem de angustiante ou literário.

encosto a cara às vidraças da imensa janela, surge a visão de uma ilha. são muitas horas com a cara encostada aos vidos, olhando o mar, olhando-o até que desapareça.

a noite desce e esconde a paisagem em soluços de sombra. e esconde-me de meus próprios pensamentos. um escuro tão espesso que ao passar uma mão pela outra não as sinto.

é no insante fulgurante em que já não possuo corpo, nem sentimentos, nem desejo algum, que surje a escrita: essa mentira.

escrever é um modo falsamente inofensivo de nos suicidarmos. um dia esquece-se tudo, escrevemo-nos. no fundo, sou um homem sentado, a escrever, num recanto inacessível do meu próprio corpo.

Al Berto, in O Medo

(…)

o vento bate com força nas janelas, as palmeiras agitam-se, roçam as paredes da casa, zunem.
folheio revistas, arrumo papéis, sinto-me terrivelmente cansado. bastaria meter-me na cama e logo cairia num sono profundo. mas não, não quero dormir. fumo, ouço os estalidos da madeira, a casa envelheceu sem que eu tenha dado por isso. e eu, terei envelhecido com ela?
acendo a lareira da sala, enrolo-me numa manta e deito-me no chão, enroscado, à beira do lume, como um cão…

(…)

passei o dia a arrumar objectos, a limpá-los do pó, a destinar-lhes novas habitações, novos usos, mas não realizei nenhum sonho.
houve muito vento e pouco sol. o vento provoca-me, sempre, um desequilíbrio mental. fico com vontade de rastejar, de caminhar roçando paredes e esgravatar na cal e na terra, abrir a boca e sufocar com excesso de ar. o vento é um fenómeno metereológico desencadeado pela minha súbita vontade de morrer e viver simultaneamente. é interior o vento de que falo, comunica com os inúmeros suícidios de meu corpo. fico atemorizado com meus próprios gestos, assustam-me os olhares dos outros.
espero o fim do dia, o crepúsculo que me acalma como um vinho. a noite próxima faz-me voltar ao espaço da pele. sinto-me melhor no escuro, menos angustiado.
de resto, mais nada. olho para os objectos arrumados e não consigo lembrar-me para que servem.

tento escrever um verso.
tenho vontade de sair por aí, vaguear pelas ruas, mas vou ficar aqui, fechado na casa sitiada pela noite, perdida algures onde a não posso sequer inventar.
meio deitado, imagino o mar ao fundo das ruas, os barcos como fantasmas adormecidos no areal, finjo que não posso mexer-me.
escrevo ou desato a gritar, tanto faz.

Al Berto

É tarde, meu amor

.
é tarde meu amor
estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva de meu corpo sofrido
agora, tuas máquinas trituraram-me, cospem-me, interrompem o sono
habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais…

a solidão tem dias mais cruéis

tentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro…quis ser grande e morrer contigo
enfeitar-me com as tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda…cantar-te os gestos com ternura
mas não

águas, águas inquinadas pulsando dentro do meu corpo, como um peixe ferido, louco
em mim a lama… e o visco inocente dos teus náufragos sem nome-de-rua, nem estátua-de-jardim-público
aceito o desafio do teu desdém

na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição
apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantam

Al Berto, in O Medo, Livro Quarto – Trabalhos do Olhar

Ausente

.
ausente de mim, quando estiver cansado de ti, sem saber para onde fugir, tu estarás no meu tremer de frio que não existe, no sorriso de meu rosto de álcool. no meu susto de estar vivo, uma agulha costura os orgãos uns aos outros para que a dor não se espalhe pelo corpo. a dor, este feixe de nomes vibrando junto ao coração. um dia estarei longe, muito longe de mim e de ti. terei perdido o corpo que te sente, irremediavelmente.

Al Berto, in O Medo, Livro Primeiro – À Procura do Vento Num Jardim D’Agosto