The worst enemy you can meet will always be yourself.

“But the worst enemy you can meet will always be yourself; you lie in wait for yourself in caverns and forests. Lonely one, you are going the way to yourself! And your way goes past yourself, and past your seven devils! You will be a heretic to yourself and witch and soothsayer and fool and doubter and unholy one and villain. You must be ready to burn yourself in your own flame: how could you become new, if you had not first become ashes?”

Friedrich Nietzsche, in Thus Spoke Zarathustra

eternity

Spinoza, who was one of the wisest of men and who lived consistently in accordance with his own wisdom, advised men to view passing events ‘under the aspect of enternity’. Those who can learn to do this will find a painful present much more bearable than it would otherwise be. They can see it as a passing moment—a discord to be resolved, a tunnel to be traversed. The small child who has hurt himself weeps as if the world contained nothing but sorrow, because his mind is confined to the present. A man who has learned wisdom from Spinoza can see even a lifetime of suffering as a passing moment in the life of humanity. And the human race itself, from its obscure beginning to its unknown end, is only a minute episode in the life of the universe.

What may be happening elsewhere we do not know, but it is improbable that the universe contains nothing better than ourselves. With increase of wisdom our thoughts acquire a wider scope both in space and in time. The child lives in the minute, the boy in the day, the instinctive man in the year. The man imbued with history lives in the epoch. Spinoza would have us live not in the minute, the day, the year or the epoch but in eternity. Those who learn to do this will find that it takes away the frantic quality of misfortune and prevents the trend towards madness that comes with overwhelming disaster. He spent the last day of his life telling cheerful anecdotes to his host. He had written: ‘The wise man thinks less about death than about anything else’, and he carried out this precept when it came to his own death”

Bertrand Russell, in The New York Times Magazine, September 3, 1950

E todos os problemas se dissiparam.

(…) esta melancolia sombria, acumulada em mim por um pensamento constante, um pensamento muito acima do meu alcance: que tudo na vida não tem importância.
Sim, este pensamento ocupa-me há já muito tempo, mas a convicção completa só apareceu em mim, no ano passado. Tudo é sem importância, eis a verdade. Existirá o mundo? Ou não haverá nada em nenhuma parte? E tive a revelação de que não há nada à minha volta. Parecia-me, no entanto, que até essa altura estive rodeado por seres estranhos a mim, mas compreendi que eram aparências infrutíferas. Nada existiu, nada existe, nada existirá. Deixei logo de me irritar com os outros e de me ocupar deles. Palavra! Até chocava com os transeuntes, de tão alheado que estava. Contudo, alheado por quê? Tinha deixado de pensar. Tudo me era indiferente. Ainda se eu procurasse resolver os grandes problemas! Eu não resolvia nada, os problemas bloqueavam-me em vão; tudo se tornou para mim sem importância, e todos os problemas se dissiparam.

Fiodor Dostoievski, in O Sonho de um Homem Ridículo

Achilles and the tortoise.

One of the Parmenides’ pupils was a clever young man called Zeno (known as Zeno of Elea to distinguish him from the founder of Stoicism, Zeno of Citium). This Zeno was brilliant at producing paradoxes, some of wich have puzzled people ever since.

Among these is the story of Achilles and the tortoise. Achilles and the tortoise decide to have a race. Because Achilles can run twice as fast as the tortoise he gives her a long start. Now, says Zeno, by the time Achilles reaches the tortoise’s starting point she will have moved ahead by half the distance of her lead. And by the time Achilles reaches that point she will have moved on by half of that distance. And so on, and so forth, ad infinitum.

Achilles is never able to catch up with the tortoise, because, at each point, by the time he has covered the distance between them she will always have moved on further by half of that distance. So Achilles never overtakes the tortoise.

“Hang on!,” you may cry: “But Achilles does overtake the tortoise. Of course he does. This is all nonsense.” If you say that you will be missing the point – and it is important to be clear what the point of the story is. It is not to convince you that Achilles never actually overtakes the tortoise. He does, and you know perfectly well that he does, and so does Zeno. The point is that here is an impeccably logical argument that leads to a false conclusion. And what are we to say about that?

If that is possible for us to start from unobjectionable premises, and then proceed by logical steps, each of wich is without fault, to a conclusion wich is manifestly untrue, this threatens with chaos all our attempts to reason about the world around us. People have found it terribly disconcerting. There must be a fault in the logic, they have said. But no one has yet been wholly successful in demonstrating what it is.

For this reason, one of the well-known philosophers of the 20th century, Gilbert Ryle, has written of the parable os Achilles and the tortoise: “In Many ways it deserves to rank as the paradigm of a philosophical puzzle.” Perhaps one day it will be solved, as someone has recently solved the problem of Fermat’s Last Theorem.

Bryan Magee, in The Story of Philosophy

Inércia e Movimento

Há uma lei natural conhecida como lei da inércia. Quando alguma coisa se encontra em determinadas condições de existência tende a conservar-se nesse estado, quer esteja em repouso quer esteja em movimento. Essa lei aplica-se igualmente para seres humanos. (…) O homem é uma porção de matéria no estado de repouso e nem sempre se quer mexer. Mas quando aquecemos e começamos realmente a andar verficamos que a inércia é como o sistema propulsor de um foguetão dentro de nós… é mil vezes mais fácil continuar a avançar que iniciar o movimento. Motivação e força motriz estabelecem as diferenças entre as pessoas. Se um homem imagina um plano de acção, reconhece um dever, abraça uma causa, veremos cada órgão do seu corpo e cada faculdade do seu espírito começar a trabalhar mais eficaz e suavemente que nunca.

Alfred Montapert, in A Suprema Filosofia do Homem

Era um bocadinho disto, sff.

O Presente inexistente

Nunca nos detemos no momento presente. Antecipamos o futuro que nos tarda, como para lhe apressar o curso; ou evocamos o passado que nos foge, como para o deter: tão imprudentes, que andamos errando nos tempos que não são nossos, e não pensamos no único que nos pertence; e tão vãos, que pensamos naqueles que não são nada, e deixamos escapar sem reflexão o único que subsiste.

É que o presente, em geral, fere-nos. Escondemo-lo à nossa vista porque nos aflige; e se nos é agradável, lamentamos vê-lo fugir. Tentamos segurá-lo pelo futuro, e pensamos em dispor as coisas que não estão na nossa mão, para um tempo a que não temos garantia alguma de chegar.
Examine cada um os seus pensamentos, e há-de encontrá-los todos ocupados no passado ou no futuro. Quase não pensamos no presente; e, se pensamos, é apenas para à luz dele dispormos o futuro. Nunca o presente é o nosso fim: o passado e o presente são meios, o fim é o futuro. Assim, nunca vivemos, mas esperamos viver; e, preparando-nos sempre para ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.

Blaise Pascal, in Pensamentos

pessimismo da inteligência/optimismo da vontade

Em geral, o senhor faz declarações políticas optimistas, mesmo quando em privado está muito pessimista.

— Sim, estou. E as minhas declarações nunca são muito optimistas, porque para cada acontecimento social que nos importa, que nos toca, sou sensível às contradições manifestas ou ainda pouco aparentes; vejo os erros, os riscos, tudo o que pode impedir uma situação de evoluir num sentido favorável à liberdade. E aí sou pessimista, porque os riscos serão efectivamente enormes. Veja Portugal, onde o tipo de socialismo que pretendemos tem hoje uma pequena possibilidade que não tinha de modo nenhum antes de 25 de Abril, e que contudo corre os maiores riscos de ser ainda repelido por muitíssimo tempo. Se me colocar num plano geral, penso: ou o homem está lixado — e neste caso não apenas está lixado como nunca existiu: os homens não terão sido mais do que uma espécie, como as formigas — ou então o homem far-se-á ao realizar o socialismo libertário. Quando considero os factos sociais em especial, tenho tendência a pensar que o homem está lixado. Mas se considero o conjunto de todas as condições necessárias para que o homem seja, penso que a única coisa a fazer é sublinhar, salientar e apoiar com todas as forças o que nas situações políticas e sociais específicas pode conduzir a uma sociedade de homens livres. Se não fizermos isto, aceitamos que o homem seja um monte de esterco.

Era o que dizia Gramsci: «É preciso lutar com o pessimismo da inteligência e com o optimismo da vontade.-»

— Não seria exactamente assim que eu formularia isso. É preciso lutar, isso é verdade. Mas não se trata de voluntarismo. Estivesse eu convencido de que toda a luta pela liberdade está necessariamente votada ao fracasso, e lutar não teria qualquer sentido. Não, se não estou completamente pessimista é em primeiro lugar porque sinto em mim exigências que não são apenas minhas, mas que em mim são as de todos os homens. Por outras palavras, é a certeza vivida da minha própria liberdade, na medida em que é liberdade de todos, que me dá ao mesmo tempo a exigência de uma vida livre e a certeza de que essa exigência é — de forma mais ou menos clara, mais ou menos consciente — a de cada um.

Jean-Paul Sartre, in Situações X – Politica e Autobiografia
Entrevista de Michel Contat, Junho 1975

Descontentamento.

O caso é o mesmo em todos os vícios: quer seja o daqueles que são atormentados pela indolência e pelo tédio, sujeitos a contantes mudanças de humor, quer o daqueles a quem agrada sempre mais aquilo que deixaram para trás, ou dos que desistem e caem na indolência.Acrescenta ainda aqueles que em nada diferem de alguém com um sono difícil, que se vira e revira à procura da posição certa, até que adormece de tão cansado que fica: mudando constantemente de forma de vida, permanecem naquela «novidade» até descobrirem não o ódio à mudança, mas a preguiça da velhice em relação à novidade. Acrescenta ainda os que nunca mudam, não por constância, mas por inércia, e vivem não como desejam, mas como sempre viveram. As características dos vícios são, pois, inumeráveis, mas o seu efeito apenas um: o descontentamento consigo próprio.

Este descontentamento tem a sua origem num desequilíbrio da alma e nas aspirações tímidas ou menos felizes, quando não ousamos tanto quanto desejávamos ou não conseguimos aquilo que pretendíamos, e ficamos apenas à espera. É a inevitável condição dos indecisos, estarem sempre instáveis, sempre inquietos. Tentam por todas as vias atingir aquilo que desejam, entregam-se e sujeitam-se a práticas desonestas e árduas, e, quando o seu trabalho não é recompensado, tortura-os uma vergonha fútil, arrependendo-se não de ter desejado coisas más, mas sim de as terem desejado em vão. Eles ficam então com os remorsos de terem assumido essa conduta e com medo de voltarem a incorrer nela, a sua alma é assaltada por uma agitação para a qual não encontram saída, porque não conseguem controlar nem obedecer aos seus desejos, na hesitação de uma vida que pouco se desenvolve, a alma paralisada entre os desejos abandonados.
Tudo isto se torna ainda mais grave quando, com a repulsa do sofrimento passado, se refugiam no ócio ou nos estudos solitários, que uma alma educada para os assuntos públicos não consegue suportar, desejosa de agir, inquieta por natureza e incapaz de encontrar estímulos por si mesma. Por isso, sem a distracção que as próprias ocupações representam para os que nelas andam, não suportam a casa, a solidão, as paredes; com angústia, vêem-se entregues a eles mesmos.

Séneca, in Da Tranquilidade da Alma

Humano, Demasiado Humano

Todos os juízos acerca do valor da vida se desenvolveram ilogicamente e são, por isso, injustos. A impureza do juízo encontra-se, em primeiro lugar, na maneira como o material se apresenta, isto é, muito incompleto; em segundo lugar, na maneira como é efectuada a respectiva soma; e, em terceiro lugar, no facto de cada um dos fragmentos do material ser, por seu lado, resultado de um conhecimento impuro e isto, na verdade, de forma absolutamente necessária. Nenhum conhecimento obtido pela experiência acerca, por exemplo, de uma pessoa, por muito perto que esta esteja de nós, pode ser completo, de modo que nós tenhamos um direito lógico a uma avaliação global da mesma. Todas as estimativas são precipitadas e têm de o ser.

No fim de contas, a medida, com a qual nós medimos, ou seja, o nosso ser, não é uma grandeza invariável; nós temos estados de espírito e oscilações, e, não obstante, deveríamos conhecer-nos a nós próprios como uma medida fixa para podermos avaliar justamente a relação de qualquer coisa connosco. Talvez se conclua de tudo isto que não se deveria julgar de todo em todo; mas se se pudesse sequer viver sem avaliar, sem ter antipatia nem simpatia!… Pois toda a aversão está ligada a uma estimativa, tal qual como toda a inclinação. Uma tendência no sentido de qualquer coisa, ou para longe de qualquer coisa, sem um sentimento de que se quer o proveitoso e se evita o prejudicial, uma tendência sem uma espécie de estimativa diferenciadora quanto ao valor do objectivo não existe no ser humano. Nós somos de antemão seres ilógicos e, por isso, injustos, e podemos reconhecê-lo: esta é uma das maiores e mais insolúveis desarmonias da existência.

Friedrich Nietzsche, in Humano, Demasiado Humano

Amor-Próprio

Um mendigo dos arredores de Madrid esmolava nobremente. Disse-lhe um transeunte:
– O senhor não tem vergonha de se dedicar a mister tão infame, quando podia trabalhar?
– Senhor, – respondeu o pedinte – estou-lhe a pedir dinheiro e não conselhos. – E com toda a dignidade castelhana virou-lhe as costas.
Era um mendigo soberbo. Um nada lhe feria a vaidade. Pedia esmola por amor de si mesmo, e por amor de si mesmo não suportava reprimendas.

Viajando pela Índia, topou um missionário com um faquir carregado de cadeias, nu como um macaco, deitado sobre o ventre e deixando-se chicotear em resgate dos pecados de seus patrícios hindus, que lhe davam algumas moedas do país.
– Que renúncia de si próprio! – dizia um dos espectadores.
– Renúncia de mim próprio? – retorquiu o faquir. – Ficai sabendo que não me deixo açoitar neste mundo senão para vos retribuir no outro. Quando fordes cavalo e eu cavaleiro.

Tiveram pois plena razão os que disseram ser o amor de nós mesmos a base de todos as nossas acções – na Índia, na Espanha como em toda a terra habitável. Supérfluo é provar aos homens que têm rosto. Supérfluo também seria demonstrar-lhes possuírem amor próprio.
O amor-próprio é o instrumento da nossa conservação. Assemelha-se ao instrumento da perpetuação da espécie. Necessitamo-lo. É-nos caro. Deleita-nos – E cumpre ocultá-lo.

Voltaire, in Dicionário Filosófico