Blank Gaze

I’d really like to give you an excerpt of this amazing book, but I couldn’t find anything good enough and I can’t really work up a translation right this moment, so here goes a “The Independent” review. Continue reading

Advertisements

Silence.

e quando não aguentava mais, pousava a cabeça dentro das mãos. Segurava o peso imenso da minha cabeça: mundo: tapava os olhos com as mãos para sofrer dentro da escuridão,
dentro de um silêncio que fingia.

José Luís Peixoto, in Cemitério de Pianos

untitled.

Quando vires os teus olhos a verem-te,

quando não souberes se tu és tu ou se o teu reflexo no espelho és tu,

quando não conseguires distinguir-te de ti,

olha para o fundo dessa pessoa que és e imagina o que aconteceria se todos soubessem aquilo que só tu sabes sobre ti.

José Luis Peixoto, in Antídoto

Gotas de chuva

Agora, as gotas de chuva que caem sobre a piscina, espaçadas e imprevisíveis, parecem-me a imagem que melhor descreve aquilo que existe dentro de mim e, no entanto, sei que se me sentasse a imaginar uma imagem concreta para este sentimento, nunca me lembraria desta visão simples, aqui, à minha frente: gotas de chuva a caírem sobre a piscina.

A minha idade irá parar no momento em que partires. Será uma espécie de morte cinzenta. Serás tu que partes, mas serei eu que desapareço. Para onde fores, haverá pessoas, que já existem agora, que respiram. No teu caminho, serão como pontos intermitentes de brilho. Talvez fales para essas pessoas, talvez elas te chamem pelo nome. Para onde fores, haverá mundo e vida. Aqui, continuará apenas a varanda onde estou: um balcão inútil sobre esta paisagem que se dissolverá numa cor única assim que partires. Sem surpresas, passarei a mão pelo cimento. Essa será uma carícia imaginária e desperdiçada.

Mas isso será depois, quando existirem lâminas em todas as lembranças, incêndios, horas suspensas e irreversíveis. Agora, estou aqui e ainda não partiste. A despedida já começou em cada palavra porque sei imaginar o silêncio, conheço-o. Engano-me a acreditar que só eu conheço o silêncio. Como em tantas outras tragédias banais, a mentira é um consolo, é sobrevivência. E ainda não partiste, eu ainda estou aqui. Dentro de mim, gotas de chuva caem sobre uma superfície lisa de água, misturam-se com ela e perturbam-na desde o seu interior, desenham uma organização impossível de círculos que se alargam e colidem. Agora, o céu triste. Agora, a tranquilidade. Gotas de chuva caem sobre a piscina.

José Luis Peixoto

*.*

Entrechão

gfdk_by_porsylin

Um roupeiro, um espelho, uma cadeira,
nenhuma estrela, o meu quarto, uma janela,
a noite como sempre, e eu sem fome,
com uma pastilha e um sonho, uma esperança.
Há muitos homens lá fora, em todas as partes,
e mais além a névoa, a manhã.
Há árvores geladas, terra seca,
peixes parados idênticos à água,
ninhos dormindo sob frágeis pombas.
Aqui, não há uma mulher. Falta-me.
Desde há dias que o meu coração quer fincar-se
debaixo de alguma carícia, uma palavra.
É áspera a noite. Contra muros, a sombra,
lenta como os mortos, arrasta-se.
Essa mulher e eu estivemos colados com água.
A sua pele sobre os meus ossos
e os meus olhos dentro do seu olhar.
Matámo-nos muitas vezes
ao pé da alba.
Recordo que recordo o seu nome,
os seus lábios, a sua saia transparente.
Tem os peitos doces, e de um lugar
a outro do seu corpo há uma grande distância:
de mamilo a mamilo cem lábios e uma hora,
de pupila a pupila um coração, duas lágrimas.
Amo-a até ao fundo de todos os abismos,
até ao último voo da última asa,
quando a carne toda não for carne, nem a alma
for ama.
É preciso amar. Isso já sei. Amo-a.
É tão dura, tão frágil, tão clara!
Esta noite, falta-me.
Sobe um violino desde a rua até à minha cama.
Ontem vi dois rapazes que, diante de uma montra
de manequins nus, se penteavam.
O silvado de um combóio preocupou-me por três anos,
hoje sei que é uma máquina.
Nenhum adeus é melhor do que o de todos os dias
a cada coisa, a cada instante, alto
o sangue iluminado.

Desamparado sangue, noite branda,
tabaco da insónia, triste cama.

Vou para outra parte.
E levo a minha mão que tanto escreve e fala.


Jaime Sabines, in Recuento de Poemas 1950/1993
Traduzido por José Luís Peixoto

P.S: Tenho ideia que o Sr. José Luis não ha-de gostar muito que se lhe ande (ou eu, vá) a ‘roubar’ os posts e vir mostra-los aqui.

Mas o ‘aqui’ é relativo. Sei lá.

Peço desculpa, JLP.

E é isso, então.

As palavras escritas

Tiramos fotografias para vermos quando formos mais velhos, para não esquecermos. Nesse mundo que existe por tràs dos olhos é impossível tirar fotografias. É impossível filmá-lo. As palavras são insuficientes porque variam consoante a voz que as canta. As palavras escritas, a verem-nos desde o papel, são muito diferentes daquelas que, dentro de nós, se desfazem. às vezes, são como pássaros mortos na palma da mão. Outras vezes, são como a sua sombra. E, no entanto, escrever é falar para esse interior. Coloca uma ponte entre palavras e palavras, irmãos que se encontram. As palavras escritas no papel atravessam a pele e são despejadas directamente, com um ritmo, nesse mundo sem fronteiras que cada um de nós transporta. São como soldados a saltarem da parte de trás de um camião. Seriam necessárias muitas reticências se conseguíssemos escutar cada pormenor desse interior. É neste ponto que se coloca o problema da atenção. Temos olhos e, quanto à atenção, acontece o mesmo de quando olhamos para a distância e, a partir de certa altura, os contornos fogem dos objectos. Nesse nosso mundo/caos/alma, suponho que exista também uma distância: imagens que passam lá muito longe, por trás destas que passam logo aqui, palavras que passam onde apenas conseguimos ver vultos.

José Luís Peixoto, Publicado originalmente no Jornal de Letras.

Quando me cansei de mentir a mim próprio,

comecei a escrever um livro de poesia.

Foi há duas horas que decidi, mas foi há muito

mais tempo que comecei a cansar-me. O cansaço

é uma pele gradual como o outono. Pausa.

Pousa devagar sobre a carne, como as folhas

sobre a terra, e atravessa-a até aos ossos,

como as folhas atravessam a terra e tocam

os mortos e tornam-se férteis a seu lado.

A cidade continua nas ruas, as raparigas riem,

mas há um segredo que fermenta no silêncio.

São as palavras, livres, os livros por escrever,

aquilo que virá com as estações futuras.

Há sempre esperança no fundo das avenidas.

Mas há poças de água nos passeios. Há frio,

há cansaço, há duas horas que decidi, outono.

E o meu corpo não quer mentir, e aquilo que

não é o meu corpo, o tempo, sabe que

tenho muitos poemas para escrever.

(Lisboa, Abril de 2003)

José Luis Peixoto, in Gaveta de Papéis, Postais

quando voltaste,

os teus olhos a as tuas mãos eram
chamas a falarem para mim.

eu estava na cama onde nasci vezes de mais.

peço-te, nunca esqueças o meu olhar de quando
voltaste.

era de noite. eu não esperava mais nada.

e tu voltaste.

(…)

voltaste.

eu sorri tanto.
fui feliz e, nesse momento, morri.

José Luis Peixoto, in A Casa, A Escuridão

Eternamente.

E foi muito devagar que o seu corpo imóvel se transformou nos gestos tão lentos que a levaram a ficar, de novo, sentada na cama. E foi muito devagar que ele subiu a uma cadeira e, com as duas mão, tirou a caçadeira que o pai, havia tempo, guardara em cima do armário. E estavam distantes. Estavam sozinhos. Sentiram: estamos sozinhos.

Ele caminhou com a caçadeira para a cozinha. Ela deitou-se sobre a cama. Distantes, como se estivessem na presença um do outro, ela sentiu os lençóis brancos, estendidos, limpos, sobre o corpo; ele apontou o cano da caçadeira ao rosto e sentiu a ponta do cano nos lábios. Durante esse instante, ao mesmo tempo, estiveram lado a lado, de mão dada, e deslizaram juntos sobre a distância infinita dos campos, o horizonte sussurrado ao longe, as árvores a sucederem-se por baixo dos seus corpos, a terra a deslizar, a imensidão da distância, e passaram juntos pela última vez em todos os lugares do mundo e, juntos, preparam-se para adormecer eternamente.

José Luis Peixoto, in Antídoto

.

e vai sair, agora em abril, um novo livro de José Luis Peixoto.

e eu estou tão contente. (:

O teu olhar ficará sempre no meu olhar.

O teu olhar ficará sempre no meu olhar quando morrer e, morto, contemplar as planícies que serão o teu olhar a anoitecer lento. O ter olhar ficará nas minhas mãos esquecidas e ninguém se lembrará de o procurar aí. Penso: nunca ninguém se lembra de procurar as coisas onde elas estão, porque ninguém sabe o que pensa o fumo, ou as nuvens, ou um olhar. E tu. Continuarás perdendo o silêncio por mãos esquecidas, irá a enterrar o teu silêncio dentro do meu peito. Mulher tantas vezes repetida na respiração de um lugar passado ou morto. Tempo e vida. Mulher, não sei o que fomos. Sei que, hoje, te possuo. Hoje conheço-te. É meu o teu olhar e o teu silêncio. E de nada me serve já, porque avanço para onde os homens deixam de ser homens. Faço o caminho solitário por entre as ruínas da vida. O caminho onde tudo é muito pouco, e cada uma dessas coisas pequenas é demasiada. Ao meu lado, os destroços de tardes entre as ovelhas e pensamentos que não recordo. Ao meu lado, fragmentos de ti, do meu filho, do meu pai, da minha mãe, da minha irmã. Tu, a estenderes a roupa, na boca do demónio e das pessoas, desmancho, fez um desmancho, rapariguinha, deitada debaixo de um gigante, a dares comida ao nosso filho, rapariguinha rapariguinha, a tua pele, aquele fim de tarde em que fizemos amor.

José Luís Peixoto, in Nenhum Olhar

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.

José Luis Peixoto, in A casa, A Escuridão

.

Amo-te