Liberdade?

A alternância de amor e ódio caracteriza, durante muito tempo, a condição íntima de uma pessoa que quer ser livre no seu juízo acerca da vida; ela não esquece e guarda rancor às coisas por tudo, pelo bom e pelo mau. Por fim, quando, à força de anotar as suas experiências, todo o quadro da sua alma estiver completamente escrito, já não desprezará nem odiará a existência, mas tão-pouco a amará, antes permanecerá por cima dela, ora com o olhar da alegria, ora com o da tristeza, e, tal como a Natureza, a sua disposição ora será estival, ora outunal.

(…) Quem quiser seriamente ser livre perderá de mais a mais, sem qualquer constrangimento, a propensão para os erros e vícios; também a irritação e o aborrecimento o acometerão cada vez mais raramente. É que a sua vontade não quer nada mais instantaneamente do que conhecer e o meio para tanto, ou seja, a condição permanente em que ele está mais apto para o conhecimento.

Friedrich Nietzsche, in Humano, Demasiado Humano

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Nitimur in vetitum

Quem for capaz de respirar na atmosfera dos meus escritos, terá aprendido o que é ar puro, ar salubre. É forçoso estar preparado para as alturas, de outro modo surge o perigo de enregelar. Pois o gelo nos cerca nas cumeadas, lá onde a solidão é indizível. Mas como repousam tranquilas todas as coisas na luz! Como se respira livremente! Quantas coisas aparecem abaixo de nós! A filosofia, como eu até agora a compreendi e a vivi, é o viver voluntariamente no meio do gelo e sobre as altas montanhas, procurar tudo quanto é estranho e problemático na existência, tudo quanto foi até agora condenado pela moral. Através de larga experiência, que pela peregrinação nos domínios interditos alcancei, aprendi a olhar as causas por virtude das quais até agora se moralizou e idealizou de modo muito diverso do que convinha: a história oculta dos filósofos, a psicologia dos grandes nomes da filosofia iluminou-se em mim. Quanta verdade pode um espírito suportar, quanta pode arriscar? Tal foi sempre o meu critério de valores. O erro (a crença no ideal) não é cegueira, o erro é cobardia… Cada conquista, cada passo em frente no conhecimento é consequência da coragem, da dureza contra si próprio, da «pureza» para consigo… Não refuto os ideais, calço simplesmente luvas perante eles… «Nitimur in vetitum», neste signo a minha filosofia há-de vencer um dia, porque até agora a verdade foi sistematicamente interdita.

Friedrich Nietzsche, in Ecce Homo

Vingança

Ter um pensamento de vingança e realizá-lo significa apanhar um forte acesso de febre, mas que passa; ter, porém, um pensamento de vingança, sem força nem coragem para o realizar, significa trazer consigo um padecimento crónico, um envenenamento do corpo e da alma. A moral, que só olha para as intenções, avalia de igual maneira ambos os casos; em geral, considera-se o primeiro caso como pior (por causa das más consequências que o acto de vingança talvez traga consigo). Ambas as avaliações são de vistas curtas.

Friedrich Nietzsche, in Humano, Demasiado Humano

Talvez o homem não possa esquecer nada. A operação de ver e de conhecer é complicada demais para que seja possível apagá-la de novo inteiramente; ou seja, para todas as formas que foram produzidas uma vez pelo cérebro e pelo sistema nervoso repetir-se-ão, a partir daí, muitas vezes. A mesma actividade nervosa reproduz a mesma imagem.

Friedrich Nietzsche, in O Último Filósofo